Notícias

Pesca com Botos é registrada como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil

Em 11 de março deste ano, a pesca com botos no sul do Brasil foi registrada no Livro dos Saberes como bem imaterial do Brasil, após aprovação na 112ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Iphan. 

22/07/2026 - 19:39 | 22/07/2026 - 19:48
Imagem
Ignacio Moreno

O reconhecimento identifica os pescadores artesanais que pescam com botos como detentores de um conhecimento singular e histórico, determinando que a prática seja salvaguardada. O bem protegido não é apenas a técnica de pesca em si, mas a interação cooperativa entre humanos e animais selvagens — um sistema de pesca artesanal e um conhecimento tradicional secular que articula cultura e ecologia no litoral sul do país.

A pesca com botos ocorre em quatro sistemas estuarinos entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. A foz do Rio Tramandaí (RS) e o complexo lagunar de Laguna (SC) são os locais de maior frequência e incidência; nos estuários dos rios Mampituba (RS) e Araranguá (SC), a interação ocorre de forma mais ocasional.

O processo de reconhecimento levou quase uma década para se concluir. Ele começou em 2017, quando o Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras Regional Sul (CPP-Sul) solicitou ao Iphan o registro da pesca artesanal com auxílio de botos em Laguna. Em 2020, a Associação Comunitária de Imbé – Braço Morto (ACIBM) buscou apoio técnico do Projeto Botos da Barra, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ceclimar/CLN), para apresentar um pedido semelhante referente à pesca cooperativa no Rio Tramandaí. As duas demandas subsidiaram a instrução técnica conduzida pelo Iphan, que incluiu um dossiê coordenado pelo Coletivo de Estudos em Ambientes, Percepções e Práticas (Canoa), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSC e ao INCT Brasil Plural.

Segundo o Iphan-RS, um dos principais critérios que embasaram o reconhecimento foi a continuidade histórica da prática como referência cultural para o litoral sul do Brasil, associada a uma demanda clara da sociedade tanto pelo reconhecimento quanto pela proteção desse bem. A avaliação do instituto também aponta que a área de abrangência do registro, embora mais concentrada na foz do Rio Tramandaí, está diretamente ligada à preservação das condições naturais do entorno — a qualidade da água da qual dependem tanto o boto quanto a tainha, espécie-chave na interação de pesca. O plano de salvaguarda já define diretrizes para os próximos dez anos, incluindo questões de saneamento ambiental: a partir de agora, estudos de impacto de qualquer natureza na região precisarão considerar os efeitos sobre a prática da pesca com botos.

Imagem

Notícias Relacionadas

Nenhuma notícia relacionada encontrada.